"Eu ando pelo mundo prestando atenção em cores que eu não sei o nome, cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo Cores! Passeio pelo escuro eu presto muita atenção no que meu irmão ouve. E como uma segunda pele, um calo, uma casca, uma cápsula protetora. Ai, eu quero chegar antes pra sinalizar o estar de cada coisa, filtrar seus graus... Eu ando pelo mundo divertindo gente, chorando ao telefone. E vendo doer a fome nos meninos que têm fome"...Adriana Calcanhoto
quinta-feira, 17 de março de 2011
terça-feira, 15 de março de 2011
Quem sou eu

Sou uma branca, de olhos, cabelos e coração negros. Na infância brinquei de aventuras no banhado. Já fui “CDF” e conheci uma casa portuguesa “com certeza”. Sonhei em ser a Fernanda Venturini no vôlei e o Taffarel no futebol, mas desisti quando quebrei uma unha defendendo um pênalti. Aos 14 anos a treinadora falou: “- O vôlei ou o cigarro!”, não tive dúvidas, a não ser entre o Marlboro e o FREE. Chorei ao ver o Lula da Silva subir a rampa do Palácio do Planalto, na morte do Ayrton Senna e no fim do Xou da Xuxa e até hoje choro a cada “TPM”. O fato histórico mais impressionante da minha vida foi o “11 de Setembro” com todas as suas vítimas e somadas a elas estão também as do Afeganistão e as do Iraque que morrem a cada dia. Já quis me filiar ao PT, ao PC do B, ao PSTU e ao PSOL e agora sei que não sou partidária e que os fins não justificam os meios. Fiz faculdade de História, fiz amigos, fiz festa e fiz “terapia”. Já xinguei, já fui xingada, já arrumei a mochila pra fugir de casa e desarrumei ligeiro antes que alguém percebesse. Já falei o que quis e ouvi o que não quis. Já bebi tanto que vomitei depois da festa e também durante a festa e até no dia seguinte. Tenho uma pequena biblioteca e sempre que eu olho pra ela penso em como é bom ter aqueles livros pra ler o dia que for preciso...Já completei um álbum de figurinhas da Copa de 94, já acordei de madrugada pra ver o Mike Tyson comer a orelha do Evander Holyfield. Já corri pra não apanhar e já apanhei porque afrontei meu pai (eu não mereci), mas apanhei igual e disse que não doeu e por isso eu não chorei. Já comi pão com Nescau encima da margarina. Já fiz curso de manequim e modelo (melhor nem tentar entender isso...). Agora faço um curso de LIBRAS porque o silêncio das políticas públicas para a educação de surdos “ecoa” no tímpano da minha insatisfação com uma educação inclusiva que, inclusive, não inclui. Usei uma fantasia de carnaval na minha formatura da pré-escola e até hoje minha mãe não explicou porque isso aconteceu. Já me despedi de pessoas importantes e isso dói, já sofri por amor e isso dói, já bati uma unha encravada e isso dói, mas hoje tenho uma “farmacinha” que eu amo e me tornei suavemente hipocondríaca porque existe, sim, remédio pra tudo (na dúvida uso sempre antiinflamatórios), o segredo é não ler a bula, jamais! Já tomei fora, já “pulei fora”, já traí, já perdoei, já me enganei. Minha roupa preferida é uma camisa florida de uma avó que morreu em 1982. Nasci em 1984, por um ano perdi de ver o Grêmio ganhar o Mundial. No meu primeiro acampamento minha carona não foi me buscar, nunca mais acampei, não gosto de insetos mesmo... Aos 12 anos ganhei uma galinha de rinha de aniversário do meu vizinho e batizamos ela de Titica e bem depois ganhei um pato deficiente físico do velho que alugava o pé de jabuticaba pela temporada. Meu grande luto foi a morte da “Preta” que diziam ser meio poodle, mas eu tinha minhas dúvidas e depois o assassinato da Titica que eu desvendei porque, infelizmente, o crime não foi perfeito (minha mãe devia ter sido indiciada por me fazer comer a vítima sem saber). Gosto de sol, gosto de praia, gosto de ver a galera gritando “- Cala a boca Galvão!”, gosto de camarão, de feijão, de ovo frito, de flor do campo, de escutar música alto, de tomar chimarrão, de família reunida e do meu ‘cheirinho de criança’ que eu uso mesmo já sendo adulta. Escrevo certo por linhas tortas, me animo com idéias diferentes, gentes diferentes, cores diferentes. Acho que o “certo” não existe, só o que é bom pra cada um, mas não tenho certeza. Não creio, não rezo, só tenho medo é de fantasmas!
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Crise (Parte I)

Já estou convencida do acerto dos que se arriscaram em definir a minha personalidade como: uma ostra fechada, tepeêmica, em permanente crise sócio-existencial, psiquicamente aprofundada em auto-análises. Uma sentimentalóide de primeira!
Tudo bem! O problema é que a crise atinge o físico agora também!
Quando as férias se aproximam sinto algo do tipo: despedida + ingratidão.
A despedida é por minha conta (a vontade é sair saltitando como uma louca desvairada, como quando a mãe deixava brincar na rua mais um pouquinho antes de ter que tomar o abominável banho de cada dia!). Deve ser algo parecido com a carta de alforria, uma pseudo-sensação de liberdade plena, embora desamparada (os escravos perdiam, naquele contexto, o sentido de existir, em função do caráter escravocrata da sociedade, tornavam-se escravos da miséria, da falta de oportunidades). No meu caso, é pseudo-liberdade porque costumo ironizar minha condição de apenada em regime de liberdade semi-aberta (eu volto do trabalho para casa todas as noites para dormir). E de mais a mais, minha liberdadezinha tem data e hora pra acabar. São só uns breves dias de férias!
A ingratidão é sentida por conta dos que “ficam” enquanto eu “saio” para o período de férias. É que eu sempre acho pouco o tempo a que tenho direito. Assumo a dificuldade emocional em ter que voltar quando o tempo se esgota. Assumo andar pelas tabelas, em frangalhos, sendo as férias o único remédio passível de me curar!
Quem me lê pode pensar que eu odeio o que eu faço. Engano! Me saio muito bem! E gosto, mesmo não tendo sido a primeira opção...
Acontece que eu preciso de férias, só isso! Separar 2010 de 2011. Evitar este endereço. Esquecer o conteúdo dos trilhões de telefonemas diários. Instituíram 30 dias de férias, não é porque são bonzinhos, é pra reduzir o número de homicídios triplamente qualificados com requintes de crueldade cometidos por pessoas exaustas (como eu).
Não somos apenas profissionais. Somos seres amplos, dotados de vida pessoal também (quando dá tempo). Saímos, comemos, dançamos, dormimos, “di-ri-gi-mos”...
Eu to indo, aos trancos e barrancos, com a paciência de jó do instrutor que em 50 minutos repete umas 50 vezes:
“Parou? Primeira!”
“-Ué, porque que esse carro não anda?”
“Parou? Primeira!”
“Mas o quê que eu fiz de erradooo?”
“Parou? Primeira!”
Mas eu mando bem na marcha ré... e isso ele não vê!
A grande questão é: Minha bolsa foi roubada!
Silêncio...
...agenda, óculos, chaves, celular (número de celular!!!), cartão de crédito, RG, CPF, Título de Eleitor, cartão do plano de saúde, receita médica, muitas maquiagens...
Silêncio...
...Neste momento sou uma indigente, anárquica, sem qualquer rastro civil...(“caminhando contra o vento sem lenço e sem documento”) a não ser o B. O. (Boletim de Ocorrência).
Queria comprar um pacotinho de tempo, quanto será que vale? Me vendam 1 kg por favor, só pra mim, sem ter que dividir com telefone, com agenda, com nada...só meu!
Este texto só tem uma finalidade: ser uma válvula de escape, palavrear as sensações vividas, porque já estou cansada de esbofetear pessoas em pensamento!
Férias, por favor, férias, mil vezes férias...
Só a liberdade que as férias proporcionam pode me livrar da acidez do meu próprio esgotamento. A gastrite nervosa tende a se tornar crônica!
P.S. A diferença entre mim e o apenado em regime de semi-liberdade é que o apenado dorme preso e tem o dia todo livre, enquanto eu fico o dia todo presa e tenho as horas de sono pra sonhar em liberdade...
E eu nem sonho mais!
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
Até Quando - Gabriel O Pensador
"A PROGRAMAÇÃO EXISTE
PRA MANTER VOCÊ NA FRENTE,
NA FRENTE DA TV,
QUE É PRA TE ENTRETER,
QUE É PRA VOCÊ NÃO VER
QUE O PROGRAMADO É VOCÊ"...
PRA MANTER VOCÊ NA FRENTE,
NA FRENTE DA TV,
QUE É PRA TE ENTRETER,
QUE É PRA VOCÊ NÃO VER
QUE O PROGRAMADO É VOCÊ"...
CAMPANHA ANTI GLOBAL

Pela minha liberdade de raciocínio!
Pelo meu direito de formar minha própria opinião!
Por reivindicar uma informação despretenciosa,
sem mensagens subjetivas,
sem tendenciar ideologias políticas ou classes sociais!
O protesto é silencioso!
Basta desligar o aparelho de TV,
ou escolher uma emissora que me respeite!
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Trilha Sonora do dia:
"COTIDIANO"
(A letra do Chico na voz do Seu Jorge. O que há de melhor na música brasileira?)
(A letra do Chico na voz do Seu Jorge. O que há de melhor na música brasileira?)
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Bem Lembrado!
O post "Nádegas a Declarar" lembrou ao caro amici Gilnei, de me lembrar de algumas verdadeiras artistas brasileiras. Consagradas pelo talento, como deve ser! Obrigada.
Em oposição à bundalização e ao BBB, eu publico:
PAGU - MARIA RITA
Ver letra abaixo:
Pagu (Maria Rita)
Mexo, remexo na inquisição.
Só quem já morreu na fogueira,
Sabe o que é ser carvão.
Eu sou pau pra toda obra,
Deus dá asas à minha cobra.
Minha força não é bruta,
Não sou freira Nem sou puta.
Nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda.
Meu peito não é de silicone,
Sou mais macho que muito homem.
Sou rainha do meu tanque,
Sou pagu indignada no palanque.
Fama de porra-louca, tudo bem,
Minha mãe é Maria alguém.
Não sou atriz, modelo, dançarina.
Meu buraco é mais em cima.
Em oposição à bundalização e ao BBB, eu publico:
PAGU - MARIA RITA
Ver letra abaixo:
Pagu (Maria Rita)
Mexo, remexo na inquisição.
Só quem já morreu na fogueira,
Sabe o que é ser carvão.
Eu sou pau pra toda obra,
Deus dá asas à minha cobra.
Minha força não é bruta,
Não sou freira Nem sou puta.
Nem toda feiticeira é corcunda,
Nem toda brasileira é bunda.
Meu peito não é de silicone,
Sou mais macho que muito homem.
Sou rainha do meu tanque,
Sou pagu indignada no palanque.
Fama de porra-louca, tudo bem,
Minha mãe é Maria alguém.
Não sou atriz, modelo, dançarina.
Meu buraco é mais em cima.
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
terça-feira, 28 de dezembro de 2010
FELIZ ANO NOVO
Nesse fim de ano não tive tempo nem pra reclamar do Natal!
Não tive tempo pra organizar a rebeldia, tempo pra pensar no que eu não gosto!
Pra protestar contra o consumismo! Contra o Cristianismo!
Esse ano ta se indo, e eu ainda não consegui listar as prioridades do próximo.
Riscar da lista o que não deu certo,
Preencher o vazio com as boas novidades.
Esse ano que passou foi tão planejadinho,
Pensado minuciosamente, querido com a mais profunda pressa.
E ao final?
Tudo o que se pensou querer foi frustrante.
Todo o planejado evaporou.
Um terremoto desabou e sujou de lágrimas o que eu queria.
Mas eu queria? Mesmo? Ah, eu nem lembro...
Só lembro de não esquecer de não pedir mais nada daqui por diante!
Não listar o que não depende de mim,
Não querer nada além do que eu mereço,
Muito menos nada aquém do que me mereça!
Vou querer me distrair e confiar no acaso!
Não é comodismo, não!
Foi distraída que reconquistei espaços importantes.
Quando a pretensão era humilde e modesta,
Reconquistei a mim mesma,
Reconquistei parte da família que minha incompreensão soprou pra longe,
Reconquistei amizades que duras verdades partiram ao meio,
Reconquistei a alegria dentro do coração por sentir que há um invasor lá dentro...
Não pediu licença! Não mandei entrar! Mas ele está ali,
E o que antes era um latifúndio de individualidade e egoísmo meus,
Hoje colhe sorrisos das surpresas, doçura, carinho, amor...
Vou esperar 2011 com o pé direito bem no chão!
Tentar dizer mais sim do que não,
Seguir o ritmo da minha canção!
E quanto ao 2010?
Enterro! Sepulto! E me torno devota a ele.
Por tudo o que aprendi, pelo que ganhei e também pelo que perdi,
Pelo que eu ganhei do mundo e pelo que o mundo ao meu redor ganhou de mim!
Cochile dentro de mim a lembrança do ano que vai...
E me acorde com muitos fogos de artifício, o ano que vem!
Com um otimismo que eu nem sei de onde veio agora:
FELIZ ANO NOVO PRA MIM, PRA VOCÊ, PRA TODOS NÓS!!!
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
A TRISTEZA PERMITIDA

(Hoje o dia está nublado dentro de mim... não estou nem pra escrever... mas a crônica abaixo me traduz claramente!) Roberta.
Martha Medeiros
Se eu disser pra você que hoje acordei triste, que foi difícil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava se exibindo lá fora e o céu convidava para a farra de viver, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, acordei triste e tive preguiça de cumprir os rituais que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, colocar uma roupa, ir pro computador, sair pra compras e reuniões – se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha letargia, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Eu não sei o que meu corpo abriga nestas noites quentes de verão e não me importa que mil raios partam qualquer sentido vago da razão, eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
Você vai dizer “te anima” e me recomendar um antidepressivo, ou vai dizer que tem gente vivendo coisas muito mais graves do que eu (mesmo desconhecendo a razão da minha tristeza), vai dizer pra eu colocar uma roupa leve, ouvir uma música revigorante e voltar a ser aquela que sempre fui, velha de guerra.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, mas também porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo, telefone já para o seu psiquiatra.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto a alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Eu não sei o que meu corpo abriga nestas noites quentes de verão e não me importa que mil raios partam qualquer sentido vago da razão, eu ando tão down...” Lembra da música? Cazuza ainda dizia, lá no meio dos versos, que pega mal sofrer. Pois é, pega mal. Melhor sair pra balada, melhor forçar um sorriso, melhor dizer que está tudo bem, melhor desamarrar a cara. “Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio a outra música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la, ela que, humilde, só quer usufruir do seu direito de existir, de assegurar seu espaço nesta sociedade que exalta apenas o oba-oba e a verborragia, e que desconfia de quem está calado demais. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
Martha Medeiros
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